MENDACITY IS THE WORLD WE LIVE IN
"Mendacity is the world we live in!" foi a frase com que no belíssimo filme Gata em Telhado de Zinco Quente - protagonizado por Elizabeth Taylor e Paul Newman - o patriarca da família, temido e adulado por todos, sintetisou a calorosa recepção que lhe fora dispensada e em que abundavam mentiras, umas piedosas, outras intrigantes, outras oportunas, um mundo criado expressamente para ocultar verdades que as próprias mentiras trariam à superfície.
Creio que frase alguma descreverá tão bem este mundo "pós-moderno" em que nos calhou existir, um mundo que ainda não é possível definir como "pré"qualquer coisa porque, na voragem dos acontecimentos que o atropelam, ainda não conseguiu encontrar denominação para tal. Mas é por demais evidente que a mentira tomou conta do mundo e que, pior do que isso, dispõe de condições que permitem que se reproduza e desenvolva no tempo e no espaço. É algo de irreversivel com que teremos que aprender a viver. E é nesta avaliação, na capacidade de filtrar o que de verdade, ainda que pouco, possa haver na profusão do que nos oferece este clima de informação - tratada para que façamos parte dele - que existe a diferença entre grupos sociais:
- os que fabricam a informação, dando aos factos a expressão que melhor se adeque aos seus interesses e ao mundo em que eles podem frutificar
- os que disseminam a informação, seja através dos audio-visuais, seja boca-a-boca
- os que, por ignorância, boa-fé ou comodismo a aceitam
- os que a confrontam com as infinitas incoerências que lhe estão subjacentes, cuja quantidade e velocidade são trágicas inimigas da memória.
Acontece que, no meio de tudo isto, essa informação - a que recebemos, retemos e transmitimos - está ao dispor de quem tenha os meios para a ela aceder.
O Economist desta semana - embora, que eu me desse conta, não fale do "Summit" (LOL)que parece ter sido por ele organizado em Cascais... - traz um interessantissimo artigo , "Planet of the phones", em que, para além de mencionar os beneficios tecnológicos que justicam o seu êxito, nos dá conta do grande risco que corre o que resta da nossa privacidade e os nossos direitos como autores de uma ideia ou de um projecto. Ficamos a saber - se ainda não soubessemos - que é possível a uma empresa comprar os cartões SIM que serão aplicados nos smartphones, o que lhe permitirá o acesso a toda e qualquer mensagem escrita ou de voz, e que qualquer ideia ou projecto que incautamente punhamos em rede será petença do mundo em duodécimos de segundos. E isto vale tanto para boas como para más ideias ou intenções, para factos reais como para enredos inventados.
Nas revistas cor-de-rosa - no mundo cor de rosa onde pairam Cinhas, Lilis e futebolistas que desaparecerão em semanas ou meses para dar lugar a outros, intercalados de reis, principes e duquesas que trazem àquela miscelânea o sonho dos contos infantis - as mentiras se as houver só afectam os que, a troco de algo, se sujeitam a essa publicidade. O mesmo não acontece com a imprensa diária ou semanal que se debruça sobre temas que directa ou indirectamente dizem respeito ao País em si ou no mundo onde ele se insere, e versa sobre assuntos que nos dizem directamente respeito, que são constantes das nossas vidas. Aí a mentira, ou a verdade perversamente insinuada, são de extrema gravidade.
O modo como os políticos aprenderam a dirigir-se-nos - não no que dizem, que raramente tem substância ou dura apenas o engendrar de um desmentido mais ou menos camuflado, mas na expressão convincente (caso de Passos coelho, tal como o era o de Socrates), doutoral, de quem está ensinar gente ignorante (como é o caso de Maria Luís, ministra da Finanças), atabalhoado de boas intenções (como é o caso do ministro da Segurança Social) , astuciosamente articulado (como o são os discursos de Cavaco), para apenas mencionar alguns - reflecte mais insidiosamente um propósito de nos colocar na posição de ouvintes confiantes, desejosos de aprender, pesarosos por não ver retribuidas as boas intenções, esperançosos numa autoridade que julgamos ao nosso serviço, do que o simples e honesto facto de nos dar a conhecer algo que possa trazer ainda que seja apenas uma ponta de verdade ao nosso conhecimento.
O que se vem passando com a Grécia, sobejamente relatado e comentado em toda a imprensa internacional falada e escrita - de nós, para além de Juncker, ninguém fala, nem sequer para gabar a nossa virtude de bons alunos ou a nossa honestidade (desmentida, aliás, pelo arrastamento de actos de corrupção e fuga aos impostos) -, tal como as desastradas atitudes que em relação ao facto o Governo vem exibindo, evidência até que ponto a ignorância nos torna vulneráveis.
É óbvio que "não somos a Grécia"! Como também não somos a Irlanda! Mas não pelas razões apontadas de que tanto o governo se orgulha e a moinistra das Finanças faz o frete de glorificar! Não somos a Grécia por uma série de boas e importantíssimas razões geoestratégicas que nunca são mencionadas e que são determinantes, pela dimensão e pelo turismo que nunca poderá ser comparável. Como não somos a Irlanda porque o povo é diferente porque, com todas as dificuldades que isso acarrete, faz parte da sólida, e assaz próxima, comunidade britânica.
Podemos acreditar em Marx - os comunistas não mentem, só que aquilo em que acreditam é comprovadamente mentira -, podemos acreditar no que foi dito pelo último governante que falou e trocar depois o que ele disse pelo que disser o seguinte (em que também acreditaremos), podemos acreditar nos discursos de uma oposição salvadora que dirá o que for preciso para dar uma alegria ao Partido, podemos acreditar que isto já não tem ponta por onde se lhe pegue e que por mais "gurus", conselhos de TAO, exorcismos e "mães de santo" que nos impinjam temos mesmo é que pensar seriamente sobre o que vemos, ouvimos e lemos e que "não podemos ignorar.
E mais do que isto ..."É JESUS CRISTO, QUE NÃO SABIA NADA DE FIMANÇAS, NEM CONSTA QUE TIVESSE BIBLIOTECA!.